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Dr. José Antonio Pinto

28/10/2008

José Antonio Pinto - Presidente da Academia Brasileira de Ronco e Apnéia do Sono (ABRASO)

 

- Como e quando surgiu a idéia da parceria entre ABORL-CCF e ABRAMET? Quais foram as primeiras diretrizes estabelecidas?

José Antonio Pinto: A parceria entre a ABORL-CCF e a ABRAMET já existe há longa data, inicialmente em relação aos motoristas com perdas auditivas e transtornos do equilíbrio.
Atualmente, com a evolução dos conhecimentos na área de distúrbios do sono na Otorrinolaringologia e a sua relação com o aumento dos acidentes automobilísticos, ambas as associações uniram seus esforços para implementar em nosso país e tornar viável a resolução nº 267 de 15 de fevereiro de 2008, do Conselho Nacional de Trânsito - CONTRAN, que dispõe sobre a avaliação dos distúrbios do sono em condutores de veículos automotores. As primeiras diretrizes estabelecidas foram de fornecer a ABRAMET a relação de todos os Otorrinolaringologistas, cadastrados na ABORL, que seriam credenciados a avaliar os distúrbios do sono dos motoristas quando da renovação, adição e mudança para as categorias C, D e E, através de critérios estabelecidos pelo DENATRAN.
Outra importante diretriz é propor a ANVISA uma legislação para alertar nas embalagens dos medicamentos aqueles que causam sonolência e que podem diminuir a capacidade de atenção do motorista.
Nossas associações pretendem trabalhar juntas divulgando à população essas medidas preventivas para redução de acidentes automobilísticos.

- Quais os objetivos dessa iniciativa em encaminhar à ANVISA a proposta de legislação para alertar nas embalagens de medicamentos que causam sonolência o alerta de "proibido dirigir"?

JAP: A sonolência excessiva (SE) e a redução do estado de alerta dos motoristas pode ser conseqüência de doenças específicas como a apnéia obstrutiva do sono, de alterações do ritmo circadiano e de privação do sono, porém, pode também ser devido ao uso de drogas e medicamentos. È importante que a população seja alertada desses efeitos colaterais, dos quais a sonolência excessiva é um dos mais freqüentes com o uso de antihistamínicos, antidepressivos, anticonvulsivantes, antipsicóticos entre outros.

- Como a apnéia do sono tem interferido na saúde dos motoristas? Percebemos nos últimos anos um aumento no número de acidentes devido a este problema e ao excesso de sono?

JAP: A apnéia obstrutiva do sono com suas manifestações de asfixia durante o sono, despertares recorrentes e diminuição da oxigenação, compromete de forma significativa a qualidade de vida das pessoas, levando-as a um estado de SE, fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, além de sérias conseqüências sobre o sistema cardiovascular, neurológico e comportamental. A SE é, hoje, um importante problema de saúde pública, tendo sido demonstrado que a taxa de acidentes de carro com pacientes com apnéia é 7 (sete) vezes maior que em pessoas normais.
Nos Estados Unidos, o custo de acidentes relacionados a SE atinge 50 bilhões de dólares anuais.

- Como o senhor atuou e tem atuado nessa parceria?

JAP: A Academia de Ronco e Apnéia do Sono (ABRASO) e a ABORL-CCF estão hoje integradas com a ABRAMET num importante trabalho de pôr em prática a resolução 267 do DENATRAN, através da avaliação dos distúrbios do sono nos motoristas profissionais em todo o território nacional. Os médicos Otorrinolaringologistas serão os primeiros a avaliar estes problemas, selecionando-os adequadamente de acordo com os parâmetros pré-estabelecidos, os complementando de acordo com o caso de outros exames, como a polissonografia.
Além disso, a ABORL-CCF e a ABRAMET estão encaminhando a ANVISA a relação de medicamentos que podem levar a sonolência, para que conste nas embalagens o alerta a respeito.
Objetivamos também promover uma campanha nacional para divulgar à população todas estas medidas e alertar sobre os riscos da SE nos acidentes de trabalho e de tráfico.


- O senhor é um dos maiores especialistas na área do sono no Brasil. Como você vê o otorrino nesta área? Existe algum tipo ainda de resistência quanto a mudança de atuação ou os médicos estão se interessando mais?

JAP: O Otorrinolaringologista está hoje absolutamente integrado nos estudos dos distúrbios do sono, em especial nos distúrbios respiratórios, como a apnéia obstrutiva. A abrangência a outras áreas da Medicina do Sono foi absolutamente natural e hoje a ABORL-CCF tem em suas residências médicas e em cursos de educação continuada programas específicos proporcionado ao ORL ampla formação em Medicina do Sono.
Nosso interesse é nos unirmos a outras especialidades em trabalhos somatórios, como fizemos com a ABRAMET, visando oferecer uma melhor assistência a nossa população.

- Como o senhor prevê essa aceitação da proposta de legislação pela ANVISA?

JAP: Acreditamos que pela realidade dos fatos e pelo trabalho que vem sendo feito pelas nossas associações médicas, a ANVISA deverá estudar com todo o carinho estas propostas.

- Quais serão os principais tópicos de atuação da ABORL-CCF para que esta iniciativa dê certo?

JAP: Os principais tópicos a serem enfocados prendem-se a atitudes preventivas, como o que tivemos oportunidade de avaliar recentemente através da redução de acidentes de trânsito pela "lei seca".
O alerta de que a SE constitui hoje a causa maior de acidentes de tráfico e de trabalho, tem sido sobejamente comprovado, como a tragédia do petroleiro Exxon Valdez no Alaska, provocando desastre ecológico imensurável e econômico de mais de 2 bilhões de dólares. A explosão da nave espacial Challenger, a tragédia de Chernobyl, também estão relacionadas com a privação ou débito de sono.

- Qual é o tipo de falta de informação que existe, hoje, neste tema: aos motoristas que abusam de certos medicamentos para não dormir, das próprias empresas farmacêuticas que não alertam sobre os riscos ou do ministério da saúde?

JAP: Há necessidade de serem criadas medidas preventivas a todos estes riscos, através de:
- uma melhor avaliação dos distúrbios do sono em motoristas, fazendo a prevenção primária com o diagnostico precoce e medidas profiláticas e curativas conforme o caso;
- alertar a população em geral quanto às conseqüências da privação do sono e do uso de medicamentos que possam levar a SE e os cuidados quando dirigir;
- contar com o apoio da indústria farmacêutica e do Ministério da Saúde neste importante trabalho de alerta e prevenção.

- E o futuro? Como será o perfil dos motoristas e do trânsito se aprovada esta mudança de legislação?

JAP: Considerando-se a aplicabilidade destas medidas preventivas, teremos uma melhor conscientização da população em geral e dos motoristas quanto aos riscos advindos e, consequentemente, uma redução dos acidentes de trabalho, de trânsito, melhor produtividade laboral, com diminuição dos custos conseqüentes e das vítimas resultantes.