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Dr. Douglas Salmazo Rocha Morales

20/08/2008

Dr. Douglas Salmazo Rocha Morales - Otorrinolaringologista e Assistente ORL do Hospital Universitário da USP-SP

 

- Dr. Douglas, comente e explique sobre este projeto e seus idealizadores 

R: O projeto nasceu com a necessidade do Hospital Universitário (HU) da USP em resolver os casos de hipertrofia adenoamigdaliana diagnosticados na sua área de cobertura (no Distrito do Butantã e comunidade USP).
Levamos o problema para a superintendência do HU, que nos deu forte apoio para que desenvolvêssemos uma forma de solucionar tal demanda. Com isso, solicitamos permissão ao Prof. Dr. Richard Louis Voegels
(responsável pelos residentes de ORL da FMUSP e ex-presidente da ABORL-CCF) para ampliar a grade de horário de residentes no HU-USP, que nos deu um positivo, reforçado pelo Professor Titular do Departamento de Otorrinolaringologia e Presidente da ABORL-CCF, Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento. Contamos com a ajuda também dos residentes Dr. Valdir Caldeirão e Dra. Sílvia Bono, e convidei o Dr. Gilberto Moro Takahashi para nos ajudar a liderar o projeto.
Solicitamos autorização ao Dr. Fábio Jacob, coordenador da Equipe de ORL do HU-USP, no sentido de elaborarmos o programa. Recebemos apoio dos colegas Otorrinolaringologistas da instituição, Dra. Gisele Veloso dos Santos, Dra. Maura Catafesta Neves e Dr. Élder Y. Goto.


- E quanto ao atendimento? A idéia é realizar mutirões ou prestar auxilio personalizado? 

R: Não aprecio mutirões. Acho coletivo demais. Então, tive a sorte de me reunir com o Superintendente do Hospital, Prof. Dr. Paulo Andrade Lotufo (numa 2ª reunião), com um colega otorrinolaringologista do HU Dr. Gilberto Moro Takahashi e a administradora médica do HU-USP, Dra. Ana Paula Cury.
Enfatizamos a real necessidade de atender estes pacientes e resolver os seus problemas, sem gerar um sentimento de se tratar de um "rebanho".
Imaginamos que o atendimento ambulatorial devesse ser personalizado, individual, mesmo que reuníssemos muitos pacientes num mesmo dia de atendimento.
Com relação às cirurgias, pedimos para que fossem realizadas duas por dia, com a presença do residente, para que ele aprenda e enriqueça seu conhecimento, e sem o desespero de precisarmos de muitas caixas, muitos anestesistas, muitos leitos, muitos etc., o que acaba causando muita confusão na mente de pacientes, funcionários e até mesmo dos médicos envolvidos.
A superintendência entendeu nosso discurso e nos deu apoio, então, quando nos reunimos com os anestesistas, pediatras, enfermeiros (do centro cirúrgico e da enfermaria e hospital dia), pessoal da central de esterilização de materiais e administração do HU, a idéia ganhou mais força ainda, visto que o impacto institucional do ponto de vista administrativo e gerencial não seria tão grande, entretanto, o impacto de se manter duas cirurgias/dia útil por três meses (exceto às 2as feiras) traria uma solução esperada para mais ou menos 100 pacientes a mais do que nossa meta programada. 

- Vamos a três perguntas em uma só: Quais são as características do projeto, qual o perfil do paciente e onde o atendimento está sendo realizado?

R: A maior característica do projeto é a manutenção dos ideais de assistência de qualidade, individualizada, associada à oportunidade de ensino e treinamento ao residente da Faculdade de Medicina da USP (Departamento de Otorrinolaringologia).
O paciente, de maneira geral, vem encaminhado das UBS (Unidades Básicas de Saúde) da Região do Butantã ou da Comunidade USP (alunos, funcionários, docentes USP e seus dependentes).
A característica comum é a de apresentarem hipertrofia adenoamigdaliana, ou adenoideana, ou amigdaliana, ou então, amigdalites de repetição. O atendimento foi realizado no Ambulatório do Hospital Universitário da USP. O que houve de inovador neste projeto foi trazer ferramentas ao médico que facilitassem o atendimento, a consulta e os papéis (documentos), por exemplo:


1) Cada equipe de "otorrinos", formada por um assistente (HU-USP) e um residente (FMUSP) usaram um consultório com material essencial para este atendimento. (cinco equipes ao todo);

2) Agendamento de um paciente (com diagnóstico prévio de hipertrofia adenoamigdaliana) a cada 15 minutos para cada equipe (total de 27 - 28 pacientes por equipe, total geral de 138 pacientes);

3) Quando os pacientes chegavam, suas fichas estavam impressas, bastando assinar. Eles foram pesados e, de acordo com o peso, colocados para determinadas equipes, pois na distribuição dos casos ao longo dos três meses, alguns dias da semana, não poderíamos contar com equipamento de anestesia para pacientes com menos de 35Kg (infantil);

4) O setor de informática, a nosso comando, deixou os horários em centro cirúrgico, condicionados a senhas, que cada equipe possuía para desbloquear o horário e agendar a cirurgia;

5) Pacientes com exames laboratoriais vencidos tiveram exames novos programados, em sistema de informação, com escalonamento de datas de coleta no laboratório, evitando aglomeração;

6) As fichas de AIH
(Autorização de Internação Hospitalar) estavam preparadas com cabeçalho adequado e a identificação do paciente, seu registro no hospital, o nome do médico que o atendeu, a data, a hora e o número da sala de cirurgia foram impressas numa etiqueta, que foi usada em vários documentos como impresso de internação, AIH. Adendo - resumo do caso e termo de consentimento do HU.

7) Após consulta com Otorrinolaringologistas, o paciente e seu acompanhante foram transferidos para uma sala de aula, onde uma enfermeira apresentou informações gerais sobre a internação, jejum, "enxoval", alergias, roupas, etc.; depois disso o paciente era encaminhado para uma sala individual, onde outras enfermeiras esclareciam eventuais dúvidas remanescentes.

- Há possibilidade de expandir este projeto a outros hospitais? 

R: Sim, basta usarmos as características comuns de determinados diagnósticos, agrupando e informatizando ao máximo o que for possível e, por outro lado, na parte da consulta, exame físico, diagnóstico e proposta de tratamento, proporcionar a máxima privacidade a cada doente. 

- Qual a importância deste projeto para a ORL e para a medicina?

R: Acredito que instituições que apresentam profissionais homogêneos em relação à forma de atuar possam utilizar ferramentas similares a estas, a fim de reunir doentes com características semelhantes, diminuir a burocracia repetitiva do atendimento, dando como benefício ao médico e paciente, uma relação mais personalizada e agradável. 


- Existem parceiros nesta iniciativa, como hospitais, laboratórios ou faculdades?

R: Sim, temos o Hospital Universitário da USP, Hospital Das Clínicas (Departamento de ORL da FMUSP), Laboratório de Coleta e Processamento de exames no HU-USP e a Faculdade de Medicina da USP (residentes) 

-  O atendimento em ORL no SUS é um dos mais deficientes do país. Você acha que com este projeto isso pode mudar e conscientizar outros médicos a fazer o mesmo?

R: Este projeto pode esclarecer à sociedade não médica de que nos preocupamos com o paciente e com sua queixa.
Quanto aos colegas médicos, precisamos salientar que a solução não é total, mas parcialmente vantajosa, tanto para a sociedade como para os médicos, pois o bem estar que se alcança ao saber que estamos potencializando nosso atendimento, sem outros desgastes, é muito encorajador.
Penso que campanhas bem estruturadas, envolvendo o Sistema Primário de atendimento, que com a inclusão de Otorrinolaringologistas na rede de UBSs, poderíamos drenar, em cascata, pacientes com diagnósticos semelhantes, para Hospitais secundários e terciários com a solução para estes pacientes (nada muito novo), apenas uma cascata organizacional piramidal.
 


-  Quais as especialidades da ORL estão incluídas no atendimento, por enquanto? Você pretende adicionar mais alguma vertente da ORL em breve? 
 
R: Hoje nosso interesse é resolver o tratamento de pacientes com hipertrofia adenoamigdaliana.
Podemos aplicar o mesmo modelo, com eventuais alterações, para outros pacientes com outras doenças. 


-  Como você analisa o perfil do paciente que precisa do atendimento em ORL com base nos já prestados no Hospital Universitário?

R: Vejo que o paciente, se tratado, não voltará às filas de Pronto Socorro infantil ou de adulto, pois grande parte das doenças que os Prontos-Socorros observam são Infecções de Vias Aéreas Superiores e suas adjacências, ou então, complicações de um funcionamento inadequado das Vias Aéreas Superiores.
Existe, também, o caso do paciente que se comunica mal e não entende o que o médico (de outra especialidade) tem para lhe proporcionar. Se ouvisse melhor, se trataria melhor.