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Dr. Flávio Emir Adura - Presidente da ABRAMET

06/06/2008

- Dr. Flávio, O senhor poderia traçar um panorama de como foi esta resolução do CONTRAN (que inclui os exames de polissonografia, de aptidão física e mental, e avaliação psicológica entre as obrigatoriedades para a obtenção da CNH profissional (classes C, D e E)
R: O Conselho Nacional de Trânsito fez a resolução 267, que dispõe como serão realizados os exames de aptidão para condutores de veículos automotores. Existe uma resolução anterior que colocava a necessidade de certos exames para o motorista, avaliação otorrinolaringológica, neurológica, oftalmológica, e essa nova medida inovou e trouxe a necessidade de exame para detectar distúrbio do sono para a aptidão do motorista, para profissionais. Estes deverão, obrigatoriamente, a passar por uma avaliação dos distúrbios do sono. Ela é especial: deve ser medida a circunferência cervical, pressão arterial, cavidade oral, IMC, questionário de sonolência. No caso de dois destes apresentarem alterações importantes, o médico deverá encaminhar o motorista para o exame de polissonografia.

- Só vai ocorrer na medida em que for detectada uma alteração em dois desses testes?
R: Serão avaliados cinco critérios e o examinador vai encaminhar para o tratamento especializado. Quem vai fazer é o otorrino, ele é quem vai examinar a apnéia obstrutiva do sono. Até porque poderia se imaginar a dificuldade de encaminhar essas pessoas, já que não existem clínicas de polissonografia suficientes. A espera está em dois anos, entrando essa resolução, essa fila pode aumentar para quatro, cinco anos. Mas pode ser feito pelo convênio, mas é Brasil inteiro. A ABRAMET é uma instituição nacional e temos que fazer visitas regionais, no Mato Grosso, por exemplo, existe apenas uma clinica. No Mato Grosso do Sul não havia clínicas especializadas. No Amazonas, uma ou duas, ou seja, não há estruturação para fazer a polissonografia. O sono é uma questão muito importante no trânsito. Caminhoneiros dirigem até a exaustão à base de anfetaminas, drogas, e isso pode até ajudar no início, mas depois causa o sono. A apnéia possui um valor substancial muito grande. É uma população hipertensa, geralmente têm problemas de colesterol e são obesas. O sono se equipara ao álcool, praticamente. Dos acidentados do transito, 50% têm álcool no sangue, segundo uma pesquisa do IML. Temos que aplicar na resolução uma medida para que haja uma fiscalização dos caminhoneiros quanto a isso.

- Vários estados não têm clinicas que fazem o exame de polissonografia. Como que a ABRAMET está pensando em atender a todos esses motoristas?
R: A ABRAMET alertou que, do jeito em que está, a resolução será uma letra morta, não vai ser cumprida. Então alertamos que a resolução tem de ser modificada, pois ainda não está estruturada. Em uma das minhas visitas que fiz à ABORL-CCF, a convite do Dr. Marcelo M. Hueb, sugeri ao presidente da ABRASO, o Dr. José Antônio Pinto, e ele gostou da idéia, de o tratamento passar pelo sempre pelo otorrino. A Associação informou que existe um grande número de médicos, e com isso a ABORL-CCF encaminharia para a ABRAMET essa relação de médicos incluindo os que atendem pelo SUS, por convênios e particular. Divulgaríamos a todos os médicos examinadores, ao DETRAN e CONTRAN sobre a existência destes otorrinos.

- Como informar a existência de otorrinos que fazem o exame de polissonografia aos médicos da medicina de tráfego?
R: Temos que atingir o médico que faz o exame, divulgar os otorrinos que fazem isso, aqueles que podem fazer a polissonografia. Os médicos seriam informados de que dispõem de colegas que fazem o exame, a avaliação, e até indicariam ou não a polissonografia, essa é a maneira mais sensata de aplicar a resolução.

- Como o senhor vê essa relação entre Medicina de Tráfego e otorrinolaringologia para esta questão do sono. Como essas especialidades podem atuar de maneira conjunta para resolver este problema?
R: Por questão de justiça, trago a informação de que a resolução começou a ser elaborada em 2000 e, na ocasião, a então Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia, teve papel fundamental. O CONTRAN convidou sociedades de especialidades médicas do MERCOSUL, para que todos os caminhoneiros fossem examinados de maneira igual. A ABRAMET e a ABORL-CCF foram convidadas na época e foi a ABORL-CCF quem trouxe a preocupação de se avaliar também a questão do sono. A primeira vez que a questão foi levantada foi pela ABORL-CCF, a ABRAMET depois fez um levantamento de dados e viu a importância de se aplicar o sono também na resolução. Acho que até reforçaria muito esta união para tornar viável este pleito que nasceu da ABORL-CCF e foi desenvolvida pela ABRAMET. Outras coisas podem ser avaliadas para que possamos reduzir os acidentes e o fator sono como causa de acidentes. É importante esta vinculação entre associações para desenvolver a importância do sono.

- A gente percebe no cotidiano que tem aumentado muito o número de acidentes entre jovens. A ABRAMET vai focar também essa questão do sono nos jovens (pois, muitas vezes, o jovem vai pra balada e comete exageros, ignorando suas limitações físicas)? Com base nisso, uma reportagem mostrou que uma noite ininterrupta tem o mesmo impacto nos reflexos que altas dosagens de álcool.
R: Existe realmente a semelhança no desempenho do condutor com álcool e com falta de sono, o álcool está muito influente nas questões de acidentes, vamos ter em breve alcoolemia zero no Brasil. Vemos muitas palestras sobre álcool e não vemos nada do sono. A solução não está no código de trânsito, está no ensino, ensino primário, para que desde cedo a criança seja informada sobre o álcool e sobre o sono. O jovem é um problema, na faixa dos 18 aos 25 temos 25 % dos mortos, e eles morrem em uma fase que causa uma tragédia irrecuperável, a família morre junto. Às vezes, o sono e o álcool estão juntos na mesma morte. No Espírito Santo, o DETRAN tem um programa entre a polícia do transito que se chama "Madrugada Viva", que conscientiza os jovens na balada sobre os problemas do álcool e sono, em tom amistoso. E isso tem que vir para São Paulo, mesmo a cidade sendo muito grande. (Vale ressaltar que o alto índice de acidentes envolvendo jovens na maioria das vezes é causado pela combinação de álcool e privação do sono)

- De que forma as empresas de transporte poderiam contribuir para reduzir ou pelo menos orientar seus funcionários a procurar auxílio a algum especialista ou ao próprio otorrino ou ao médico do tráfego?
R: As empresas grandes têm esse serviço e já o realizam na própria instituição. Tenho relato de empresas que reduziram o número de acidentes após o exame de polissonografia. Elas afastam os motoristas, tratam, e até fornecem os aparelhos para reabilitação aos motoristas. As empresas grandes fazem, mas o problema é com os motoristas autônomos.

- Esses programas não se estendem aos motoristas autônomos?
R: Não, infelizmente, mas poderia ter um enfoque para eles.

- O senhor acha que falta informação a esses motoristas por não estarem presentes nessas empresas, que têm toda uma conscientização sobre o sono, do perigo de ficar horas ao volante?
R: Falta informação, mas também falta fiscalização. Pela necessidade profissional, o motorista autônomo vai continuar a assumir riscos. Existe um projeto legislativo no Brasil sobre a jornada de trabalho, que vai ser rigoroso, serão permitidas 4 horas contínuas dirigindo de dia e 3 horas à noite. A fiscalização vai ser difícil, mas já existe um projeto sobre isso.

- Sobre levantamento de dados, o senhor considera outro ponto importante sobre essa relação entre o otorrino e o médico do tráfego a prevalência entre a apnéia do sono e acidentes do sono isso para ampliar o atlas para outros lados?
R: Perfeitamente, este primeiro atlas foi sobre mortalidade, acidentes, e agora neste vamos incluir as causas do acidente, por exemplo, se as pessoas que ficaram feridas se saíram lesionadas, se morreram depois, tornar menos genérico estes dados, e a associação pode contribuir nos dados de sono.

- É importante a presença de um vice-presidente especialista em Medicina do Tráfego, como é o Dr. Marcelo Hueb na ABORL-CCF, nessas ações de conscientização, e também na implantação de programas específicos para capacitação do otorrino?
R: A vinda do professor Marcelo Hueb traz a visão dos dois lados. O distúrbio do sono do paciente que precisa dormir e agora o motorista que tem o distúrbio, não só tratando a qualidade de vida, mas também para que ele não se envolva em acidentes. É interessante que vemos com freqüência o profissional da psiquiatria, por exemplo, que receita a um paciente um remédio antidepressivo e não pergunta se o paciente é motorista. O médico não pergunta, não percebe que certos medicamentos causam letargia, sonolência e são impróprios para o motorista, isso pode causar até acidente. A visão do especialista é fundamental.

- O código de transito é rigoroso em cumprir leis. Com base no caso da bancária que dirigiu na contramão (uma bancária de 27 anos dirigiu 5,5 km na contramão na Avenida 23 de Maio, em São Paulo/SP, na madrugada do dia 27/05. A mulher possui transtorno bipolar e está afastada do trabalho há dois meses em conseqüência disto), não seria uma brecha para que uma pessoa que toma certo medicamento ser impedida de dirigir?
R: Deveria e a pessoa é impedida, o problema é como avaliar esses pacientes. A resolução 267 diz que o exame tem de ser inicializado com um questionário e a aplicação de multa de seis meses a um ano por falsidade no questionário, que aborda se a pessoa toma medicamento, se faz tratamento psiquiátrico etc. As pessoas que sofrem disso devem ser examinadas no período em que estão com a crise, normalmente encaminhadas pela família, já que quando elas não tem nada são pacientes normais, e o exame não vai detectar nada. Se for diagnosticado algo, a CNH da pessoa terá a observação, e a validade da carta será reduzida também, para um maior acompanhamento.

- Mais alguma coisa que o senhor gostaria de destacar, Dr. Flávio?
R: Quero falar mais uma coisa! Outra colaboração que a ABORL-CCF deu à resolução 267 foi a padronização da prova da voz coloquial e a audiometria. A avaliação anterior dizia que o motorista tinha que fazer a prova da avaliação da voz coloquial, mas não tinha nada que explicasse como fazer, mas a ABORL-CCF padronizou e estipulou tudo isso. A ABRAMET levou à câmara temática e foi aprovado. Antes, o motorista podia ter perda auditiva de até 40 d por cada ouvido, mas a resolução não explicava como podia ser interpretado, em quais freqüências, e então a ABORL-CCF atuou nisso, virou lei, e foi implantado na resolução.