Carta de repúdio às palavras do Ministro da Saúde Ricardo Barros

21/07/2017

Prezado Senhor Ministro da Saúde Ricardo Barros,

 

Vossa Excelência, como Engenheiro e membro do atual Governo, deve saber que o déficit habitacional do Brasil, segundo a FIESP, em 2016, foi de 6,2 milhões de moradias neste país, incluindo neste grupo os domicílios improvisados, rústicos, com adensamento excessivo, com ônus excessivo e coabitação, mesmo com o alardeado programa "Minha casa, Minha vida"1. Deve saber também que "o gasto excessivo com aluguel em tempos de recessão somado ao encolhimento do setor de construção civil e do programa Minha Casa, Minha Vida nos últimos dois anos deve fazer avançar o déficit habitacional no país. Dados preliminares da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mais recente, de 2015, apontam crescimento anual de cerca de 30% dos lares afetados pelo alto comprometimento da renda com pagamento do aluguel. No total, 3,8 milhões de moradias têm esse problema, dado que agrava o déficit habitacional. Além disso, entre 2013 e 2015 houve redução de quase 400 mil unidades na produção de novos domicílios, após mais de cinco anos de avanço"2.

Vossa Excelência, como Engenheiro e membro do atual Governo, deve saber que o Brasil é um dos principais produtores de grãos do mundo, porém encontra enormes gargalos na logística e na infraestrutura de transporte, dificultando sobremaneira o escoamento da safra. Os problemas envolvem o mau estado das rodovias, falta de investimentos nas ferrovias e hidrovias e o alto custo do transporte, gerando um grande obstáculo para aumentar a competitividade agrícola brasileira3. "Além das ferrovias e hidrovias insuficientes, das estradas em péssimas condições, o Brasil lida ainda com portos defasados. Hoje, quase dois terços dos grãos exportados acabam nos portos de Santos e Paranaguá. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), o restante é dividido entre 16 terminais, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. Como 55% dos grãos são movimentados por caminhão, o resultado dessa concentração - aliada ao despreparo logístico e à falta de bons acessos terrestres aos portos - são as longas filas de veículos no momento do descarregamento. A saída poderia ser o uso maior de ferrovias no transporte de cargas, mas esse modal (apesar das recentes promessas de investimentos) está extremamente defasado e não atende a maior parte das fronteiras agrícolas brasileiras. Além disso, mesmo com 35% dos grãos viajando de trem, o custo do frete não caiu para o produtor"3. O transporte aeroportuário de cargas é quase inexistente, representando menos de 1% da matriz de transporte do Brasil, com grande concentração nos terminais de Guarulhos (SP) e Viracopos (SP), além da baixíssima qualidade nos serviços4.

Vossa Excelência, como Engenheiro e membro do atual Governo, deve saber que a indústria brasileira apresenta desempenho negativo no mercado global, com queda das participações nas exportações e na produção mundial. O resultado reflete a perda de competitividade da indústria. Nos últimos 10 anos, perdemos competitividade da exportação de manufaturados, no custo unitário do trabalho efetivo (em dólar), na produtividade efetiva e na participação no valor adicionado mundial de manufaturados, segundo a Confederação Nacional da Indústria5.

Não vamos nos estender com assuntos que são (ou deveriam ser) do seu conhecimento, mas apenas queremos chamar a atenção para que, segundo a sua lógica, bastaria instalar um controle de ponto com biometria para os engenheiros nas obras de construção de habitações, infraestrutura viária, pontes, viadutos, estradas de rodagem, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos, assim como em cada porta de indústria, pois isto acabaria com o "faz de conta" que os engenheiros trabalham, melhorando assim a produção, a logística, a indústria, a habitação e a economia como um todo.

A Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial está empenhada em ajudar o Brasil e crescer e se tornar um país de primeiro mundo e nossa contribuição, ainda que modesta, se soma às dezenas de outras manifestações de repúdio ao seu infeliz comentário, denegrindo a figura do médico que, como Vossa Excelência bem mencionou "ganha pouquinho", mas não trabalha pouquinho, pois o trabalho é grande, árduo e, muitas vezes sem os mínimos recursos.

Em Medicina, temos como corolário que um diagnóstico errado leva a um tratamento errado, assim como, na Engenharia, um erro de cálculo pode derrubar uma ponte. O seu diagnóstico foi equivocado, mas entendemos que esta não seja sua prática. Faltou-lhe os seis anos de faculdade, os 3 a 5 anos de especialização, além da pós-graduação, dos cursos de atualização e dos congressos anuais. Faltou-lhe também discernimento e a capacidade de avaliar as coisas com bom senso e clareza. Faltou respeito a quem dedica a sua vida e de sua família para cuidar de outrem, não pelo "pouquinho dinheiro", mas por uma inclinação de natureza instintiva que nos incita à preocupação com o outro, com abnegação.

É com muito respeito à sua pessoa, não como Ministro, pois ninguém nasce Ministro, mas como Homem também de respeito, que aguardamos a reparação desta afronta à nossa profissão, numa retratação pública de igual intensidade.

Cordialmente,

 

Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial

 

Referências:

1.        http://www.fiesp.com.br/noticias/levantamento-inedito-mostra-deficit-de-62-milhoes-de-moradias-no-brasil/

2.        http://www.valor.com.br/brasil/4882412/deficit-habitacional-aumenta-com-recessao

3.        http://www.transpobrasil.com.br/os-gargalos-no-escoamento-da-producao-agricola/

4.        http://www.fdc.org.br/blogespacodialogo/Lists/Postagens/Post.aspx?ID=363

5.        http://www.portaldaindustria.com.br/estatisticas/Indicadores-de-competitividade-da-industria-brasileira/

 

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