Centenário de Horst Wullstein, um dos mais brilhantes otorrinos do século XX
por: Dr. Sergio de Paula Santos

Em dezembro de 2006, comemorou-se o centenário de nascimento do professor alemão Horst Wullstein, uma das personalidades mais importantes da Otorrinolaringologia mundial. Estudou medicina em Munique, Freiburg, Viena, Dusseldorf e Hamburgo. O curso médico na Alemanha, de 12 semestres, ao contrário do que ocorre entre nós, é realizado em várias universidades, a critério do estudante.

Começou a exercer a profissão em 1933, em Jena. Anos depois, no serviço de ORL da Universidade de Munique, sob o Prof. Nadoleczny trabalhou no setor de "Voz e Doenças da Fala", obtendo em 1937, em Jena, sua "Habilitation", direito de ministrar cursos e aulas na universidade.

Durante a Segunda Guerra Mundial, foi médico militar de 1941 a 1943, onde chegou a chefe de clínica em ORL, da Universidade de Estrasburgo. Detido após o conflito, voltou a exercer a Medicina em 1947, quando passou a dirigir o serviço de ORL do Hospital Jung-Stilling, em Siegen, na Vestfalia. Em 1955 recebeu o convite para a cátedra de ORL da Universidade de Würzburg, na Francônia, Baviera, que chefiaria até sua aposentadoria, em 1975, como Professor Emérito.Wullstein morreu em 1987, em Würzburg.

A produção científica de Wullstein abarcou toda a especialidade. Em Jena e Estrasburgo ocupou-se da patologia do ouvido interno. Suas conclusões constam da monografia "A clínica da labirintite e paralabirintite sob o aspecto radiológico", Stutgard, Thieme, 1948.

Sua principal atuação, entretanto, pela qual se tornou mundialmente conhecido e reconhecido foi a cirurgia funcional do ouvido, a da otoesclerose e principalmente a da otite média crônica, a "timpanoplastia", termo criado por Wullstein e cirurgia por ele sistematizada.

Sua grande experiência dessa cirurgia consta do estupendo volume "Operações para a melhoria da audição", Sttutgard, 390p. Thieme, 1968.


A  CLÍNICA DE OTORRINILARINGOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE WÜRZBURG

Würzburg, a herbipolis romana, na Francônia, no norte da Baviera, como povoado celta, data de 1000 anos a.C..O primeiro documento que a cita é de 700 A.D., do duque Hetan II, confirmando sua propriedade no povoado turingeo-franconiano. O bispado é de 741 e a cultura da vinha,embora anterior, só é documentada em 779.

A Universidade de Würzburg, uma das primeiras da Europa, foi fundada pela primeira vez em 1402, pelo príncipe-bispo Johann von Egloffstein, por uma bula papal de Bonifácio IX (1350-1404).

Por razões políticas e econômicas a Universidade funcionou apenas por algumas dezenas de anos,tendo sido novamente fundada em 1582, agora pelo príncipe-bispo Julius Echter von Mespelbrunn. Os cursos ensinados eram quatro, teologia, jurídico, filosofia (e artes) e medicina. O curso médico baseava-se nos ensinamentos do médico Ortolf von Baierland, de Würzburg, cujo "Tratado de Medicina", de 1280, incluía várias doenças de nossa especialidade, e seu tratamento.

O curso de medicina iniciou-se em 1587 e constava de 3 disciplinas - Medicina Teórica (onde se ensinavam os conceitos de Hipócrates, Galeno e Avicena), Medicina Prática (infecções, febres) e Cirurgia, que incluía botânica e farmacologia.

Embora inúmeros trabalhos e descrições anatômicas relativas à especialidade datem da Antiguidade, as especializações como as conhecemos hoje, são do século XIX.

São considerados os fundadores da moderna otologia Joseph Toynbee (1815-1866) de Londres e William Wilde (1815-1876), de Dublin, pai de Oscar Wilde. Suas publicações foram respectivamente "Diseases of the ear", de 1860 e "Aural Surgery", de 1853.

Cabe lembrar também que o primeiro trabalho a tratar com rigor da audição (na realidade um livro em 2 volumes), foi o de J. M. G. Itard (1774-1838), "Traité des Maladies de l´oreille et de l´audition", de 1820.

Entre os discípulos de Toynbee e Wilde esteve Anton von Tröltsch (1829-1890), inicialmente médico generalista, além de jurista, que a pedido de seus alunos, dedicou-se à otologia e foi nomeado professor da especialidade, o primeiro, na Universidade de Würzburg, em 1864.

Deve-se a Tröltsch um "otoscópio", semelhante aos nasoscópios atuais, que permitia visualizar a membrana timpânica, com luz natural.

A Tröltsch sucedeu em 1890, seu chefe de clínica Wilhem Kirchner (1849-1935) que dirigiu o serviço até 1919. Kirchner fora também discípulo de Politzer e de Gruber em Viena, importante centro médico na época.

Ao tempo de Kirchner a cirurgia otológica tornou-se rotineira em Würzburg e o professor conseguiu do Estado Bávaro, em 1907, fossem construídos 2 edifícios para essas cirurgias, um para os pacientes privados e outro para os da clínica.

A especialidade ocupou-se assim no início, principalmente da otologia. A laringologia, cuja patologia mais freqüente era a tuberculose da laringe, enquanto a rinologia apareceria mais tarde.
  Pode-se dizer que a laringologia iniciou-se em Würzburg com Carl Gehrardt (1833-1902), clínico geral, que aproveitou-se do "invento" do espanhol Manuel Garcia (professor de canto em Londres), de 1854, o espelho laríngeo, para examinar seus pacientes.

A primazia do emprego do espelho laríngeo para exame do órgão é disputada por J. N. Czermak, de Pest (1828-1873) e L. Turk, de Viena (1880-1868), motivo pelo qual se tornaram inimigos, com publicações quase simultâneas .
 Carl Gehrardt não foi titular da cadeira, mas iniciou e dirigiu paralelamente o setor de laringologia da mesma, e teve entre seus pacientes toda nobreza do império austro-húngaro e alemã, inclusive os chefes de Estado.

A Kirschner sucede na cátedra Otto Seifert (1853-1933), em 1918. Era de Sommerhausen, na Baixa Francônia, próximo à Würzburg, e como Gehrardt, era laringologista. Chegou tarde à cátedra, aos 65 anos, que dirigiu por apenas 1 ano, até 1919. Antes de chegar à otorrinolaringologia, fora dermatologista, na mesma universidade.

No final de 1919, foi convidado para a cadeira, Paul Manasse (1866-1927), que passara por Tübingen, Berlim e Estrasburgo, onde sucedera na cátedra a Khun, em 1918, quando após a Primeira Guerra Mundial, a Alsácia passou da Alemanha à França.

Manasse notabilizou-se como anatomopatologista, sendo o primeiro a reconhecer a otoesclerose coclear, patologia rara que leva seu nome. Foi ao seu tempo que a especialidade unificou-se oficialmente, em 1922, englobando as doenças do ouvido, do nariz e da laringe.

Morreu de acidente automobilístico em 1927 e é substituído por Hermann Marx (1877-1953), que era professor em Münster e permaneceu no cargo até 1947. Não foi apenas um especialista "completo", como preocupou-se com as patologias da ORL relacionadas às moléstias neurológicas, oculares e sistêmicas.

Publicou alguns livros básicos da especialidade, até hoje consultados e foi diretor do Hospital Geral da Universidade (Luitpoldkrankenhaus) em 1931-1932 e presenciou a destruição de Würzburg no ataque aéreo de 16 de março de 1945. O hospital, onde chegamos a trabalhar, que fica em uma colina na periferia da cidade, foi relativamente pouco atingido. A ação de Hermann no atendimento aos feridos foi considerada heróica.

Em 1947 Theodor Nühsmann (1866-1962), vindo de Estrasburgo, assume provisoriamente por 6 meses a cátedra de ORL. Nühsmann tornou-se conhecido por sua colaboração no monumental livro de Denker e Kahler, "Handbuch der Hals-Nasen-Ohrenheilkunde", 9 vols, Springer e Bergmann, Berlim e Munique, 1925-1929, possivelmente o mais completo livro da especialidade até então publicado.

Ainda em 1947, Max Mayer (1890-1954), berlinense que se especializara em Würzburg sob Manasse, assume a cadeira da Universidade. Antes da Segunda Guerra Mundial, mal visto pelos nazistas, Mayer vae em 1935 para Ancara na Turquia, onde leciona até 1940 e posteriormente para Teerã, no Iran, onde ficará entre 1941 e 1947, quando é convidado para Würzburg, e dirigirá a clínica até 1955.

Diz a crônica que Max Mayer foi um homem brilhante, profissional e socialmente, um cidadão do mundo, benquisto por seus assistentes, alunos e pacientes.

Seu sucessor foi Horst Wullstein (1906-1987), cujo centenário de nascimento vem de ser comemorado em Würzburg e sobre o qual já falamos em detalhes em matéria anterior, neste mesmo periódico.

Diremos tão somente que Wullstein foi o mais brilhante especialista de sua geração, e para muitos, agora com a ótica que o tempo nos proporciona, possivelmente o nome mais importante do século XX em nossa especialidade.

Segue-se Walter Kley (1921-1995), vindo da cátedra de Mainz e que já fora chefe de clínica de Wullstein em Würzburg até 1966. Kley dirigiu a cadeira de 1975 a 1987, falecendo em 1995. Como discípulo de Wullstein foi principalmente otologista, mas ocupou-se também das fraturas da face e lesões da base do crânio.

Foi sucedido por Jan Helms (1937-    ), vindo de Mainz. Otologista foi um dos pioneiros do Implante Coclear no país, do qual a clínica de Würzburg tem uma grande experiência. Dirigiu a clínica de 1987 a 2005, quando se aposentou.

Helms foi sucedido por Rudolf Hagen(1957-    ), em 2005 e seu chefe de clínica é Joachim Müller, encarregado do setor de Implantes Cocleares e mais recentemente dos Implantes-Vibradores para o ouvido médio, nas seqüelas de otite média crônica, a cirurgia "micro invasiva" do momento e do futuro.

É esta, de modo bem sucinto a história da Clínica de Otorrinolaringologia da Universidade de Würzburg, iniciada ao redor de 1860, conhecida e reconhecida internacionalmente, na qual tivemos o privilégio e a honra de participar ainda que minimamente.